sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A GUERRA NO RIO E O ESTADO DE NECESSIDADE

 "Não se faz omelete sem quebrar os ovos" (frase atribuída à esposa de um escritor russo levado a campo de concentração na Sibéria por Joseph Stálin, cabendo pesquisa mais acurada)

O recente episódio que abateu em "tiro mortal" um major PM e sua esposa, também major PM, num inequívoco flagrante que incluiu buscas em domicílios e em dependências de quartel, leva-me a pensar no porquê de jovens oficiais, graduados e praças atuantes na linha de frente mergulharem nesse abismo extremo que à luz da lei é indubitavelmente crime, mas à luz da guerra não passa de autodefesa contra um MAL que desde muitos anos a lei não atalha com o devido rigor.

No meu modo de ver, - e por acumular muitas vivências de realidades que não cabem numa folha de papel, - arrisco-me a afirmar que os arautos da lei, engravatados e refrigerados, não têm vivência nem ideia do que se passa na linha de frente de uma guerra hoje inclusive admitida por boa parte da grande mídia do Rio de Janeiro e algures.

Ora bem, muitos poderão concluir pela temeridade desta opinião, o que, confesso, não me abala nem um pouco neste estágio da vida. Por isso me vou arriscar a afirmar que há na linha de frente situações que jamais poderiam ser levadas ao pé da letra de leis mortas que ignoram a realidade da guerra entre malfeitores perigosíssimos e PMs esgotados, pauperizados por um governo corrupto, mal armados e sem proteção individual condizente com as multivariadas situações de alto risco por que passam, situações que não são alcançadas por lei alguma, a não ser se direcionada para o lado que sempre morre: o lado do BEM em sua desproporcional luta contra o MAL.

Falo de um MAL diário, cotidiano, que surge diante dos PMs da linha de frente em mil artimanhas destinadas a matá-los como se mata um submisso "gado de rebanho". Deste modo, muitos se acovardam com razão, desistem de combater, adoecem física e psiquicamente, tornam-se trapos humanos que não mais sabem distinguir o dia da noite, pois é assim numa guerra. Mas esta guerra não pertence à sociedade e aos cidadãos que se recolhem em seus casulos em segurança, protegem-se em seus mundos de grades, carros blindados e seguranças particulares, enquanto à sua volta, no submundo, pessoas morrem num combate insano de policiais contra bandidos, com larga vantagem para os segundos.

Ora, artimanha por artimanha, aos PMs da linha de frente, nos atordoados dias de hoje, cabe apenas mudar de profissão, o que não é tão simples assim num país sem mobilidade social, com 14 milhões de desempregados. Enfim, fugir da guerra, recuar dela, enfiar-se na proteção dos quartéis ou em floresta inexpugnáveis não é privilégio de todos, mas de uma minoria que não sabe com que barulho o projétil lhe passa próximo, não conhece a realidade da guerra travada em ambientes sociais formados por bandidos, mas ocupados por maioria silenciosa de pobres, indigentes e miseráveis, que, se não lhes bastasse morrer de fome, ainda morrem de tiro.

Eis então o ambiente onde atuam os PMs, sendo certo que muitos deles, enquanto "cidadãos", têm família morando em favelas dominadas pelo tráfico ou nela também residem e de quando em quando são obrigados a abandonar seus lares deixando tudo para trás, levando apenas a roupa do corpo e suas vidas mal vividas.

Sim, é neste ambiente movediço que mora a imensa maioria dos PMs. E são eles os que batem em retirada para salvar a sua pele e a de sua família diante de invasões de facções criminosas que já incluem a periferia de favelas, único lugar permitido ao PM como moradia. E é nesta situação aviltante, humilhante, desproporcional em termos de força, que insiste o PM em ficar, como insistia o major e sua esposa flagrado em situação fora do "certinho" das leis vigentes.
No meu modo de ver, e em função da realidade, talvez não houvesse outra forma de se defender dos bandidos e do covarde sistema situacional representado por quem abraça as leis sem noção de como ocorre o fato que a abalroa. Sem noção do limite de um Estado de Necessidade, por mais extemporâneo que o seja, mas que, em última análise, visa a proteger a vida e a liberdade do PM ora representado pelo casal de oficiais superiores que talvez estivesse introjetado em seus espíritos abandonados ao léu uma realidade de guerra insana não alcançada por engravatados e protegidos em suas bolhas de segurança.

E tudo isso ocorre porque a Lei Maior é ignorada, o Estado de Defesa é adiado, o Estado de Sítio é considerado "afronta" por políticos e burocratas ladrões que infestam os poderes da República Federativa do Brasil, esta que mais se assemelha à "República" grafada pela pena de ouro do mestre Lima Barreto. É neste panorama geral, é neste oceano de putarias envolvendo bilhões e quiçá trilhões de reais, dólares e euros surrupiados do erário público, é neste oceano assustador que se situa a "ilha de realidade" dos PMs flagrados em Estado de Necessidade (sem aspas mesmo!), para de algum modo não sucumbirem ao MAL maior de uma criminalidade cujas facções são mais poderosas que os maculados partidos políticos e as maculadas instituições burocráticas que infestam como praga irremediável o país.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

A GUERRA NO RIO

A grave situação da segurança pública no Grande Rio, principalmente, tendo como epicentro o tráfico de drogas, tem dado azo a muitos pronunciamentos dos mais variados "especialistas", sublinhando-se entre eles alguns PMs oriundos da PMERJ e outros alienígenas que jamais atuaram no ambiente social do RJ, mas têm discursos afinados com a pauta da grande mídia localizada no Estado, mas com eco no Brasil e no mundo.
O fato de serem essas pessoas de algum modo vinculadas a interesses político-ideológicos-midiáticos torna a suas falas no mínimo contraditórias, para não dizê-las distanciadas da realidade. Ficam então os PMs que vivenciaram a segurança pública do lado de dentro e na linha de frente dos confrontos, em épocas várias, sem voz ativa, figurando então como "verdades" essas falas contaminadas por palavras mortas, meramente academicistas, no seu sentido pejorativo.
Enquanto isso, as batalhas por locais de venda de drogas, com muitas mortes, predominam ao lado de assaltos perpetrados por grupos armados de fuzis automáticos de última geração que entram a rodo no Brasil e desembocam nas favelas do Rio. E com eles e por conta deles ocorrem as matanças desenfreadas, com a população local em pânico e se recolhendo atrás de grades dentro de suas casas.
Mas como a vida há de seguir, as crianças vão às escolas e morrem de caminho, os cidadãos vão ao trabalho e morrem de caminho, os policiais vão à luta e morrem às pencas, ou no confronto com malfeitores agrupados em grandes quantidades ou reagindo a assaltos enquanto também de caminho ao trabalho e no retorno aos seus lares, quando não morrem em serviço.
O cenário é, sim, de guerra urbana, de confronto bélico além dos paradigmas adotados pela ONU para acionar forças de paz. Mas os governantes locais, mancomunados com esse sistema apodrecido por insistentes ideologias socialistas, fazem ouvidos moucos e se mantêm cegos e mudos, isto quando não defendem o lado de lá. maltratam os policiais e assim agradam a quem comanda os votos no RJ: os traficantes e suas facções.
A verdade é que nem a participação das Forças Armadas tem ajudado muito no controle da criminalidade na ponta da linha no RJ. Não possuem os militares federais a vocação para a atividade policial, e suas ações acabam se confundindo e gerando poucos resultados práticos. Sim, a hesitação dos militares federais é evidente e justificável. Afinal, não é função dos exércitos de linha se voltarem para o país e darem as costas para o mundo externo, onde de fato residiria o perigo que lhes compete atalhar em ações operativas de defesa ou de ataque. Porque, em vista das leis, o bandido não deve ser tido como inimigo porque aí se descamba para um perigoso conceito, que é o de "inimigo interno", que dá ao marginal comum o status de "subversivo". Ora, não há clima político no país para tal desiderato. Ocorre, porém, que a realidade é a de que as grandes facções criminosas armadas como forças paramilitares dominando territórios imensos (complexos favelados) só podem ser combatidas se enquadradas como "inimigas internas", demandando daí ações operativas e não mais as ações policiais.
Eis a questão: a ação das Forças Armadas no controle da criminalidade expõe as vísceras de um sistema militar que dispensa o uso real de forças intermediárias, ora representada de modo inconstitucional pela Força Nacional de Segurança Pública, que não passa de emaranhado de PMs e BMs sem vivência nos terrenos onde são instadas a atuar. Enfim, uma bagunça do lado do sistema situacional e uma sofisticação a mais e mais preocupante do lado de um sistema criminoso conectado com um mundo criminoso multinacional que não será vencido aqui. Resta então rezar e pedir a Deus para lançar raios e trovões contra esses ímpios. Rezemos então...


sábado, 9 de setembro de 2017

A GUERRA NO RIO - A lógica do militarismo na PMERJ (ou a falta dela)



 “O mundo está perigoso para se viver! Não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa dos que o veem e fazem de conta de que não viram.” (Albert Einstein)



Por conta de crises econômicas, financeiras e morais internas e externas a PMERJ enfrenta, cabisbaixa, o ocaso institucional. Mais grave é que a passividade impera também no âmbito administrativo que sustenta a operacionalidade, porque este âmbito administrativo desde alguns anos vem discriminando no outro (operacional) o militarismo essencial ao desenvolvimento da corporação como estrutura pautada pela hierarquia e disciplina.
Ao passar pelas ruas cariocas e fluminenses (separo de propósito para lembrar que a PMRJ e a PMEG jamais se uniram numa só estrutura, a não ser por conta de uma legalidade ditatorial sem legitimidade) as passar pelas ruas cariocas e fluminenses o cidadão vê com naturalidade uma dupla de “cosme e damião” formada de diversas maneiras, que lembram o “Belchior” do conto machadiano “ideias de Canário” das “tampas sem panelas e das panelas sem tampas”: é subtenente com cabo, é sargento com sargento, é sargento com cabo, é cabo com soldado, é subtenente com subtenente, e em algumas situações há até oficiais ombreando praças.
Deste modo avesso aos paradigmas militares outrora concebidos por mentes importantes em vista de guerras nas quais a hierarquia e a disciplina conscientes são vitais, a PMERJ inova em teimosia o seu policiamento. E mais ainda inovou e insiste em errar ao manter as UPPs, modelo concentrador de tropa tão defeituoso quanto o que se vê nas ruas.
Há uma máxima estrutural, atribuída a Louis Sullivan, que diz que a “forma deve seguir a função”. Sob o manto deste argumento simples, que, em síntese, significa que a estrutura (eficiência) de uma organização deve seguir os seus objetivos para alcançá-los de maneira ótima (eficácia ou efetividade, dependendo do autor considerado), poderíamos até admitir uma teratogênese estrutural nos meandros da PMERJ. Ocorre, porém, que numa avaliação de resultados somos obrigados a concluir que a corporação está longe de ser eficiente e eficaz em todos os seus aspectos internos e externos. Mais parece uma bolha de sabão exposta aos azares do vento e dos espinhos arbóreos.
A “ciclotimia decisorial” se sobrepõe à lógica do que se poderia dizer simples. Porque a corporação se rende aos políticos e insiste num modelo estrutural complexo, ou melhor, ininteligível sob a ótica da Doutrina de Emprego nas Seguranças Individual e Comunitária que fundamentam a Segurança Pública. Daí passar a ser normal a anormalidade estrutural, claro que com reflexos negativos na seletividade do uso da força ante uma criminalidade armada para a guerra e autista em relação às leis criminais vigentes. Prova disso mais contundente é o somatório de assassinatos de PMs nos últimos anos, bastando somar o que ocorreu de 1994 para cá, segundo dados publicados pelo jornal EXTRA de 27 de agosto de 2017 (3334 PMs mortos). Afinal, será que ninguém é responsável por isto? Continuará assim até quando?... A QUEM ESSE GENOCÍDIO INTERESSA?



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

"GUERRA NO RIO - TRÊS MIL PMs DESLOCADOS DAS UPPs PARA O ASFALTO"



“O mundo está perigoso para se viver! Não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa dos que o veem e fazem de conta de que não viram.” (Albert Einstein)





O título é do Jornal EXTRA de hoje, dia 23 de agosto de 2017, marcando quase dez anos em que esse programa operacional foi inaugurado como "salvação da lavoura" a partir do acontecido no Morro Dona Marta, numa das maiores farsas a que o RJ foi submetido por um governo venal, cujo cabeça se encontra preso por centenas de crimes de corrupção, isto sem falar no crime por ele perpetrado contra a instituição PMERJ, esta que, ao aceitar passivamente o que a doutrina operacional de polícia administrativa preventiva condena, responde hoje por um número absurdo de assassinatos de PMs pelo tráfico, somando quase uma centena só neste ano de 2017.
Nada ocorreu ao acaso e muitos pontos obscuros marcam a administração Cabral/Beltrame nesses tempos de Copa do Mundo e Olimpíadas, conforme reiteradas vezes eu aqui reclamei em artigos sequenciais que, como diferença do título da matéria do Jornal EXTRA, apenas se nota a inversão (RIO EM GUERRA). Enfim, de uma maneira ou de outra o centro da discussão permanece o da inegável "GUERRA", que, ainda por frouxidão de políticos envolvidos em roubalheiras desde o Planalto Central e seus palácios até as prefeituras municípios do RJ e algures, alguns ricos e outros pobres, mantém-se espantosamente ignorada e tratada como esparadrapo em fratura exposta.
O Jornal EXTRA sem dúvida tomou para si a dianteira da solução, que, como venho sugerindo aqui faz tempo, é o recuo e a reorganização dos efetivos da PMERJ em vista do enfraquecimento do policiamento preventivo-repressivo que se evidencia no asfalto, com a morte não apenas de PMs, mas de civis, durante roubos perpetrados por bandidos armados até com fuzis, não sem ceifarem pessoas indefesas, um absurdo jamais visto no RJ.
Trata-se, tecnicamente, de um cenário de Grave Perturbação da Ordem Pública, situação que demanda medidas operativas para a sua restauração, sendo certo que tecnicamente essas medidas não cabem no contexto da normalidade legal, mas no da exceção legal (ESTADO DE DEFESA E ESTADO DE SÍTIO), que precisa ser assumida pelos poderes constituídos nos termos da Carta Magna.
O Jornal EXTRA de hoje, que também muito abanou no passado as UPPs, pelo menos retoma em seriedade o assunto sob sua ótica real, a de hoje, que se resume à inegável falência de um modelo de policiamento mais que conhecido pela corporação (DPOs comuns no interior do RJ) e que somente mudou de nome para ser encaixado em favelas na Capital das Olimpíadas e da Copa do Mundo, "Cidade Maravilhosa" que hoje capenga com suas pernas enfraquecidas, em espantosa entropia consequente da absurda criminalidade geral, que tem como mola propulsora o tráfico de drogas, tentáculo do tráfico internacional de drogas e armas.
Não será fácil e talvez seja impossível restaurar esta situação de Grave Perturbação da Ordem Pública com um Poder Judiciário fraco e  um Ministério Público distante da realidade, minado por ideologias, e hostilizando uma polícia que morre diariamente, mas não pode matar. Sim, porque não há o reconhecimento oficial (de natureza constitucional) de que o RJ vivencia uma GUERRA. Não se trata mais de   cenário de Perturbação da Ordem Pública em que leis comuns, mesmo assim, só alcançam os integrantes do próprio sistema situacional, enquanto os malfeitores se mantêm livres e indiferentes a quaisquer atos prisionais. Cá entre nós, muitos deles ignorando a própria morte. 
Não há mais como desconhecer este cerne da questão e torcer para que tudo se normalize na superfície, como um milagre, empurrando a grande sujeira para baixo de tapetes. Mas é o que fazem até agora, como se pode observar com a soltura de milhares de bandidos por via de prêmios de "dia das mães ou de pais" em que dos milhares que eventualmente se livram de seus grilhões poucos retornam do mundo do crime a que por benesse legal tiveram acesso. Mas isto não é problema para os aplicadores das leis, é problema para a polícia e para a população, esta que, porém, mais frouxa ainda, finge que não sabe ou que não vê o perigo que a ronda em volume maior, tal como a represa que transborda e costuma explodir em enxurrada fatal.
Vemos agora o primeiro passo da homeostase desse sistema que se encontra no fundo do poço da entropia. Tudo bem, é um importante primeiro passo, mas que não elimina as responsabilidades anteriores. Afinal, são muitos PMs que perderam a vida sem escolha e alguém precisa pagar por isso, já que o modelo feriu a doutrina de funcionamento da PMERJ e levou esses PMs, muitos deles jovens e inexperientes, à morte. Sim, este foco não pode entrar em fade e desaparecer, como desapareceram os corpos mortos e suas almas. Um diagnóstico deve ser feito sob a ótica da exposição a perigo esses PMs, homens e mulheres, que perderam a vida nesta GUERRA finalmente assumida por parte da mídia sem muita contestação. Em contrário, há muita aceitação desta realidade, que antes de mais nada foi provocada por gestores irresponsáveis que só visavam a votos eleitorais e roubalheiras. Essa turma nojenta deve ser trazida à lide, não pode ficar à parte como se nada tivesse com o problema. Afinal, todos se lembram quando o gestor maior, o governante Sérgio Cabral, vociferou diante de 19 bandidos mortos pela PCERJ em confronto no Complexo do Alemão: "É ENFRENTAMENTO MESMO!". Mas ele, meses depois, aclamaria aos quatro cantos sua mui articulada "PACIFICAÇÃO" em meio a uma situação que já era de GUERRA!


sexta-feira, 28 de julho de 2017

RIO VIOLENTO - DESABAFO DO PM ROBERTO SANTA ROSA




“O mundo está perigoso para se viver! Não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa dos que o veem e fazem de conta de que não viram.” (Albert Einstein)








Há um ano...
Eram 18 horas e um dia absolutamente comum. Eu, sujo de graxa, saia debaixo do meu carro, que vivia dando dor de cabeça, e corria esbaforido para pegar uma camisa e ir buscar minha mulher que vinha do trabalho. Conversávamos um pouco, contávamos um troco, dividíamos o pouco. E às vezes brigávamos. Naquele dia, tudo correu em paz.
Às 20 horas, eu catava correndo farda e arma e saia varado, como sempre atrasado, para assumir o serviço às 20:30. De lá de fora eu gritei que “amanhã” faria o que ela havia me pedido uma semana atrás.
Som alto no carro e eu só pensava que sexta e sábado estaria de folga. A ligação para minha mãe, com quem eu não falava havia dez dias, também ficou para “amanhã”. Tudo exatamente igual: Um mar de carros nas ruas, gente acelerada nos seus afazeres, camelôs, engarrafamentos, buzinaços e eu, prestes a assumir o nobilíssimo dever constitucional de garantir que toda aquela desordem social ocorresse em paz. Eu que sonho como aquelas pessoas apressadas, cheio de dívidas e dúvidas como elas, sentindo medo como elas, agora, atravessava o vale da sombra da morte (prazer, Rocha Miranda) com a confiança de quem escolhe com a alma o que fazer da vida.
Deixando tudo para trás, torcia apenas para que outros irmãos guardassem os meus, enquanto eu guardaria os deles e de outros. Era só o que importava. Todo o resto “para amanhã”.
Por muito pouco o "amanhã" não chega.
Às 8 horas, próximo ao término do serviço, quis o Senhor que aqueles facínoras nos encontrassem em seu caminho. Profissionais da indústria do crime, com armamentos melhores do que os dos profissionais do Estado, em maior quantidade e dispostos a passarem por cima de nós, de mim e de meu parceiro, para atingirem sua meta criminosa.
Os covardes não sabem que entre o capim e um homem há uma diferença abissal. Eles até podem passar por cima do corpo de um homem. Mas, não antes de saborearem o reflexo de sua fúria.
Na verdade, o “amanhã” não havia chegado.
Eu já não pensava mais nas folgas de sexta e sábado. Eu só pensava em viver, pensava em ouvir ”Alma Nua” uma vez mais e no dia das crianças. Eu não tinha o direito de morrer daquela forma.
Daquele dia, me resta o barulho da sirene, o companheirismo de um Ferreira, o altruísmo de um Vilanova, o amor de uma Cláudia e a bravura de um Fernandes, ao qual eu reservei o mínimo de forças para, já no leito do hospital, venerá-lo e agradecê-lo pela honra e pela fidelidade no combate, antes de apagar sob efeito de remédios. Acordei na madrugada seguinte.
O “amanhã” chegou, porém, nunca mais como um dia foi.
Hoje reflito o quanto tudo isto valeu. Dois mortos, um preso, sete armas apreendidas, minha perna amputada... depois disto, mais de oitenta chefes de família foram assassinados por fazerem parte da engrenagem mais importante do Estado. E as consequências são a condescendência de legisladores com a criminalidade que beira à cumplicidade, a incitação contra a “polícia racista e assassina”, feita por “artistas” de quinta como Gregório Duvivier, E um misto de constrangimento e desespero ao ter que explicar todo dia para os filhos que não somos bandidos e não temos salário.
Mas, eu prefiro pensar que, ao contrário do que pregam os progressistas “paz e amor”, sempre haverá o pior do ser humano a caça de uma vítima por aí. Nós, que descemos ao inferno para levar a luz, sabemos disto. Então, nessa hora, eu penso que fiz minha parte. E rezo para que todos os homens e mulheres de fibra se levantem. Pois, quem filosofa sobre a sociedade num barzinho do baixo gávea acha que a polícia militar tem que acabar. Mas, nós sabemos que, sem a polícia, não existiria sociedade alguma.
Que Deus Proteja a todos.
Tenham fé.
Sejam fortes.
Tudo passa...
Obrigado a todos que, de alguma maneira, ajudaram a me reerguer!

MEU COMENTÁRIO

Há textos que não cabem reparos de tão contundentes e profundos. É o caso deste, da lavra do PM ESCRITOR ROBERTO SANTA ROSA. Porque ele não retrata com a perfeição dum Picasso somente o seu lado humano e seu impressionante heroísmo. Reproduz também, com exatidão, o desapego máximo e heroico de seus companheiros de guarnição, que não o deixaram ferido de caminho, que não saíram da linha de fogo sem antes proteger o companheiro ferido.

Existe no texto do Roberto Santa Rosa uma profundidade filosófica que emociona. Mais ainda: prova que um comandante de combatentes dessa estirpe não precisa nem ser valente, pode ser até covarde, mas na retaguarda dos quartéis há de ser justo e humano no trato dos anônimos que não fogem à luta.

São homens e mulheres que, embora maltratados e malvistos pela hipócrita sociedade a que servem, defendem-na com um denodo extraordinário. Homens e mulheres assim só precisam de compreensão e de justiça na retaguarda. Precisam sentir no coração, verdadeiramente, o respeito e o amor que seus superiores por eles sentem. Não precisam de mais nada porque os atributos do combatente lhes pertencem por direito de ações, de feitos e de feitios inolvidáveis.

Mas a realidade desses homens e mulheres é outra, eles e elas não recebem de seus superiores, muitas vezes, nem a atenção mínima, a não ser aquela, maliciosa, de anotar suas pequenas faltas para puni-los e depois se apresentarem aos seus igualmente maliciosos e insensíveis chefes como "disciplinadores", ignorando o que se passa na alma de cada herói que se oculta no anonimato da tropa numa corporação que, em contrário, deveria obrigar cada superior a chamar o subordinado pelo primeiro nome, sem a necessidade de estar estampado no seu peito, o "nome de guerra".

Mas o regulamento é mau, é insensível, é borduna de bugre pronta para descer sobre o quengo do combatente que no sufoco eventualmente esqueça o nome do seu comandante, não sendo a recíproca verdadeira. Sim, o regulamento disciplinar é mau na origem, vem de uma época distante em que os covardes às vezes fugiam da guerra, e falo de II Grande Guerra Mundial ou talvez de guerras multinacionais de antes. Falo, portanto, de tratamento desumano pautado na desconfiança e na malícia de quem inveja o corajoso.

Porque só atacam os corajosos com as armas da pena e da tinta os covardes. Já os corajosos se entendem, sempre se entendem, e se socorrem mutuamente no campo de guerra. Porém, no campo seguro dos quartéis não sabem muitas vezes se defender dos covardes que se fingem heróis atrás de uma farda que nunca sangrou nem sentiu o cheiro terrível do enxofre. Na verdade, nem viu uma farda ao lado ensanguentada, a farda do herói que lhe salva a vida sem que ele se aperceba disso.

Infelizmente, assim são os superiores em relação à tropa, com raras exceções, que destaco para não parecer que faço demagogia. Não! Não faço! Há superiores que merecem o amor da tropa. No fim de contas, se não fosse assim seria o fim de tudo. Ocorre, todavia, que esses justos são poucos, são minoria, pois a maioria não se impõe pelo exemplo do denodo tal e qual o seu subordinado, mas pelo ferrão das letras frias do que resumem ao puni-los dizendo que lhe ofertaram a "ampla defesa e o contraditório" no processo disciplinar, sem considerar que quem apura é quem pune, não havendo separação clara entre acusação e defesa nos processos administrativos, eis que o sistema de correição apura e pune, e a autoridade coatora somente assina o que lhe vem pronto e acabado. E assim é maltratado o herói, este, que só se destaca por meio do infortúnio da morte ou do ferimento grave e definitivo que o afasta do combate e da vida útil.

Mas o PM ROBERTO SANTA ROSA é exceção. Herói de fato e de direito, perdeu a perna, mas não perdeu o tino e a brilhante caneta que reluz em suas mãos ao escrever textos literários reais e impressionantes, uma dádiva para quem os lê. É o caso deste que comento, dentre tantos outros em que o PM, EXÍMIO ESCRITOR, deixa a sua emoção subir do coração à mente e sair pelos dedos para alcançar as almas vivas do mundo e quiçá as almas mortas de tantos heróis que se foram nesta guerra insana contra a criminalidade.

Que assim seja! Que venha o ESCRITOR dando asas à emoção! Pois os combatentes vitoriosos sempre dependeram do estímulo intelectual de homens e mulheres que também muitas vezes morreram por defenderem com papel, caneta e tinta suas, convicções, estas que de algum modo estimularam reações coletivas em prol da LIBERDADE e da JUSTIÇA.

Neste ponto homenageio o PM e ESCRITOR ROBERTO SANTA ROSA com um texto de Erico Verissimo em Solo de Clarineta:


“Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”



Que fique aqui minha continência! Não a do oficial que se rende ao PM ESCRITOR, mas a do SOLDADO Nº 4632, EMIR CAMPOS LARANGEIRA, do 1º BATALHÃO DE CAÇADORES (atual 7º BPM, sediado em São Gonçalo). Sim era BATALHÃO DE CAÇADORES, não como hoje em que os batalhões são de CAÇADOS, tal como, em momento inspirado, disse-o o ex-comandante-geral, Cel PM Ubiratan Angelo:

"Um tiro de fuzil acerta o que o atirador não vê.” (coronel PM Ubiratan Angelo, ex-comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro – Entrevista à Revista ÉPOCA – Hudson Corrêa – 30/01/2015)